Porque em todo o mundo se ouve falar dos metros de Nova York. Dos centímetros, não.
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Talvez os metros possam ser convertidos em quilômetros; mas não em centímetros - sentimentos mínimos e ímpetos infinitos. Porque a gente está acostumado com a maioridade, até mesmo ao querer mudar o mundo. Mas que mundo mesmo? Viver a minoridade. Amar os restos - e quiçá os insetos mais do que os mísseis. Ver as coisas mijadas de orvalho. Ser "menor" sem "ser". Menor. Viver em centímetros - viver o que não tem medida, nem nunca terá.

2 de maio de 2011

Colaram no muro


Num muro do Soho, New York - as misturas de propaganda vão se confundindo com a arte


Quando ela dizia “we did it” não havia polícia. Seu rosto estava coberto por um lenço e pelos óculos de sombra. O pôster estava colado no muro branco,  e o rosto coberto, porque ali não se podia colar cartazes - não se podia até que alguém o colasse. Não se podia sem entrar em edital para transformar o muro em local de arte, sem esperar por um júri que decidisse se ali seria bem-vinda alguma intervenção artística. E nessa mistura de arte com propaganda, essa pop arte deixava um site, que alguém o rasurou num dia posterior. Intervenção sobre intervenção. Esta última talvez motivada pelo desejo da arte de rua não se transformar em “propaganda”, algo que realmente mereceria se sujeitar a seleção de editais.

26 de abril de 2011

"E desespera tudo em flor."


Tulipas de cores no Central Parque. Primavera em Nova York. Dá pra sentir pelas ruas a promessa da nova estação, que já começa a se desesperar em algumas flores.

14 de abril de 2011

10 de abril de 2011

sobre paredes, sob vidros.


 Saindo do MOMA encontro a vitrine e se confunde os limites das silenciosas paredes dos museus e dos reflexos do vidro da loja -  mas a confusão é coerente pois é Nova York...

24 de fevereiro de 2011

Racoon


 De madrugada, voltando pra casa, encontro o "raccoon", que parece um pequeno urso. Provavelmente saiu do Central Park para procurar comida entre as sacolas de lixo nas calçadas. E com a sensação térmica de -10°C,  Nova York continua podendo surpreender mesmo nos caminhos mais monótonos do dia-a-dia.

20 de fevereiro de 2011

Entrar para fora da vitrine - Entering to outside of showcase

Costurando a vitrine 

    Um senhor grisalho, gordo, anônimo e com mãos grossas é vitrine em Nova York. Penduradas com prendedores num varal, as fotos demonstram o processo: passo a passo da fabricação dos sapatos vendidos na loja. Os famosos outdoors digitais da Times Square não tiram o espaço de vitrines que se interessam por um outro tempo, um tempo mais longo em que as digitais dos dedos podem deixar marcas num produto feito à mão.

16 de fevereiro de 2011

Aguando as arvores


O lago no Central Park comecou a descongelar. Entre as temperaturas negativas, um dia de 11°C espalhou um pouco d'agua pelas ruas derretendo parte da neve. Nao da' mais para caminhar sobre o lago, mas ao menos agora da' para encontrar as arvores nos reflexos dele.

3 de fevereiro de 2011

Voando no chao

Vi uma ave voando sobre a neve. Fotografei o sobre - e nao a ave, e nao a neve.

Uma ave voa sobre o lago coberto de neve no Central Park.
Andar à toa é coisa de ave.
Meu avô andava à toa.
Não prestava pra quase nunca.
Mas sabia o nome dos ventos
Lírios o meditavam.
Só tinha receio de amanhecer normal.
Penso que ele era provedor de poesia como as aves
e os lírios do campo.

Manoel de Barros (trechos do poema)

30 de janeiro de 2011

A neve se debrucava sobre os galhos

Os pequenos flocos foram se acumulando lentamente sobre a superficie ao longo do dia e a neve forte chegou no meio da noite. A falta de vento permitiu que a neve se debrucace sobre os galhos das arvores. E quando brotarem as primeiras folhas verdes, a primavera chegara como quem traz a volta da vida, sem ter sentido o desejo e a seducao que houvera dos galhos quando eles pareciam estar a beira da morte.
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18 de janeiro de 2011

And I catch the sun with my hands






Pois se é noite de completa escuridão
Provo do favo de teu mel
Cavo a direta claridade do céu
E agarro o sol com a mão

Waly Salomao



15 de janeiro de 2011

"Eu via a natureza como quem a veste" Manoel de Barros

Esta semana numa rua de cidades do interior no interior de Manhattan


      Uma das melhores surpresas que eu tive foi descobrir ruas do interior pela cidade. A poucas quadras onde uma multidao de turistas tira fotos, ha ruas com poucos carros, pessoas andando de bicicleta e uma outra compreensao da cidade vivenciada por moradores. Os restaurantes mais importantes nao possuem destaque nos letreiros e milhoes de turistas passam na frente deles sem percebe-los. Mas o assunto ultimamente e' a forte nevasca que caiu especialmente sobre Nova York. Realmente foi grande e linda. Mas sobre a nevasca se ouve falar dos numeros de voos cancelados, da quantidade de neve e das comparacoes com anos e decadas anteriores. A nevasca foi realmente impressionante e tenho me surpreendido diariamente com a beleza e a quantidade. Mas talvez mais interessante seja falar da neve atraves das suas gramas, e nao das toneladas. Dos centimetros, e nao dos quilometros. Ao medir a neve em toneladas nao se enxerga as criancas fazendo bonecos, as sutis camadas sobre os galhos das arvores ou dos coracoes tropicais que fervem em seus cofres gelados aos estarem cobertos de neves pela primeira vez. E' anular as febres loucas e breves que mancham o silencio e o cais.

10 de janeiro de 2011

9 de janeiro de 2011

Por que a poesia nao pode ficar de quatro para gozar fora da zona da pagina?





POR QUE A POESIA TEM QUE SE CONFINAR
ÀS PAREDES DE DENTRO DA VULVA DO POEMA?


POR QUE A POESIA TEM QUE SE SUSTENTAR
DE PÉ, CARTESIANA MILÍCIA ENFILEIRADA,
OBEDIENTE FILHA DA PAUTA?


POR QUE A POESIA NÃO PODE FICAR DE QUATRO
E SE AGACHAR E SE ESGUEIRAR
PARA GOZAR
FORA DA ZONA DA PÁGINA?

Trechos de "Exterior" de Waly Salomao. Ou talvez trechos do interior de Waly Salomao.